quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Abacates

Sei aonde você mora,
mas não sei mais,
com quem andas,
por onde passas.
Sei que você ve,
mas não compreendo
o que enxergas.
Vivemos numa proximidade
longínqua.
Quando paro
tento ouvir ecos
de saudades.
O silêncio
se faz profundo.
A gangorra pesou,
o balanço parou,
nosso parque esvaziou.
As crianças,
ficaram sem onde brincar.
Amadurecerão,
como abacates,
embrulhados
em notícias
de jornal.

Quarta feira de cinzas

Minha mãe
levantou agora.
Eu,
já estou de pé,
faz tempo,
mas ainda
não levantei
prá vida.
Passou o Carnaval,
os blocos sairam,
mas emblocar com que?
O Arruda esta preso,
e eu
soltamente detido,
na passarela
da vida.
Gostaria de te ver,
ter, ouvir...
Mas a distância
e o tempo,
dão a impressão
de alguém
não poupável.
De viver
uma conversa
com meus botões.
Um beijo
de quarta feira
de cinzas.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Preciso dormir

Desde criança
passo a idéia
de independência
a minha família
e amigos.
Meus pais acreditaram
que nunca
precisaria de nada.
Era alguém
"diferente" dos outros.
Mas a vida doce
também foi dura,
como rapadura.
Sempre alardeei
a facilidade de tudo.
O bom dia sol,
o bom dia lu@.
Nunca comentei
o que sentia,
ou por dificuldade de falar,
ou por desinteresse
de quem me ouvia.
Os relatos,
os percalços,
a fragilidade
que me acompanhava,
era engolida a seco.
Por vezes,
senti medo,
muito medo.
Medo de desistir
e da vergonha
da incapacidade,
da fraqueza.
Medo de tudo
e de todos.
Varei noites e noites,
procurando, procurando...,
sorrindo e chorando.
Hoje,
preciso dormir
para recarregar o corpo,
já cansado.
Atingi o momento
em que a única coisa
que realmente quero,
é alguém do meu lado
para dar as mãos
e seguir adiante.
É tão difícel
viver o abandono.

Arrodeio o paraíso

Elogiam minha calma,
meu aparente "equilíbrio",
meu silencio e paciência.
As vezes
uma pessoa muito calma,
esta sendo muito forte,
diante da violência
de ser calma
e comedida.

Qual será a verdade
que nâo consigo ouvir,
que não consigo enxergar?
Porque me envolvo em histórias,
em projetos audaciosos,
em desafios,
nos sonhos dos outros,
mas nunca nos meus.

Em nome do que,
ou de quem?
O que se torna difícel,
é o que imagino,
não o que vivo.
Este geralmente
consigo resolver.
Me importo com koizas,
que antecipadamente,
sei que não vivenciarei.

Busco o momento
que me permitirei
viver em harmonia
com meu eu.
Quero partir
rumo ao desejo.
A empatia,
é anterior a simpatia,
que é anterior ao amor.
Então,
arrodeio o paraíso,
sem coragem
e com vergonha
de entrar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Contra ponto

Brinco com a TV,
na madrugada,
e o tempo corre.
Busco ações
e razões,
na programação.
Mas só vejo chuva,
calamidades,
morte e desespero.
Exageiros??????
Mentiras???????
Também.

O Brasil no Haiti,
missão de paz,
com armas
e repressão,
em um primeiro momento.
Depois do terremoto,
somos vítimas
e heróis,
por alguns partos
e alguns mortos.

Os EUA,
ocuparam o aeroporto,
as ruas,
a baixa estima da população,
com seu "assistencialismo unilateral",
em forma de invasão,
por marines,
mascadores de chiclete.
O país precisa de comida
e recebe extremunção.

Cuba,
enviou duzentos médicos
e cinco militares,
um ato de solidariedade real.
Lula,
enviou mil e trezentos soldados
e vinte médicos.
Que desigualdade
de política.

Para ajudar ou reprimir?
Ajudar
a política americana.
Reprimir
e ocupar,
um povo refém,
da miséria,
e holocausto.
Usa as migalhas de pão,
circo e futebol.

Brinco com a TV,
na madrugada,
e o tempo corre.
Busco razões
e ações,
na programação.
Suspeito de tudo.
Rolo na cama.
Desejo.....
Bebo água,
alimentando o contra ponto,
da indignação
e da emoção.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Brincar com você

Brinco com a TV,
na madrugada,
e o tempo corre.
Busco razões,
e ações,
na programação.
Na velocidade dos carros,
em bobagens,
informações,
beijos dos outros,
choro,
vaidades....

Brinco com a TV,
fazendo
do controle remoto
um controle da vida.
Tentando buscar,
descobrir
um sorriso
fora da tela,
em meu rosto.
Tentando
garimpar vida,
felicidade,
nas tramas,
nos dramas,
nos hérois
dito eternos.

Brinco com a TV,
com a janela
e a porta do quarto
a meu lado.
Quando observo,
percebo,
que uns carros vão,
outros voltam,
pois existe "um" lugar,
na madrugada,
aonde se possa ir.
Aonde se possa
se arrepiar,
ter vontade,
improvisar
e sentir emoções.

Brinco com a TV
querendo brincar com você.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Coisas de saudades

Minha mãe me pegou neste domingo para desmontar um armário velho. Até que tentei fugir, mas não tive como.
Uma tarefa que já fiz muito, pois sou filho de militar, e as viagens e mudanças me acompanharam pela vida.
Hoje, uma tarefa solitária, pois ninguém viria me ajudar, nem seria habitual um adolescente se preocupar com a arrumação da casa, mas na solidão do trabalho, voltei no tempo, voltei a sorrir, quando já no final da retirada do fundo do armário, no último parafuso, percebo que o mesmo está espanado, e com uma pitada de humor, repito meu avô Zezinho:
“Ah, você esta aí !!!!!”.
É a certeza da lei de Murfei.
Se algo pode dar errado, se um parafuso pode espanar, se um prego pode entortar, vai acontecer.
Senti-me acompanhado, por meu querido e sábio avô. Na realidade sinto falta dele sempre. Finjo ser normal a solidão. O não ter com quem dividir os planos, o desmontar algo, as conspirações da vida, a conversa com o olhar, o brincar e o observar os animais, a natureza, o rir da vida.
O esperar ansioso o dia seguinte, com suas novidades e adrenalina.
Meu avô, diferentemente de meu pai, me provou que nada (verdade nenhuma) era absoluta.
Tudo era possível, em seu momento. A graça da vida, esta em nosso olhar, na percepção do que acontece. Passávamos pela família (pela casa), recolhíamos tarefas, ir a lojas, ver e buscar informações, resolver problemas. Depois andávamos pelas ruas, falando com um e outro, bailando no palco chamado prazer.
Hoje continuo fazendo o mesmo, vendendo sonhos, chutando pedras, mas sem o parceiro da conivência.
Tento tapar este buraco, mirando o céu.
Mas os passos ficam inseguros, coisa de idade, coisas de saudades.