quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Coisas de saudades

Minha mãe me pegou neste domingo para desmontar um armário velho. Até que tentei fugir, mas não tive como.
Uma tarefa que já fiz muito, pois sou filho de militar, e as viagens e mudanças me acompanharam pela vida.
Hoje, uma tarefa solitária, pois ninguém viria me ajudar, nem seria habitual um adolescente se preocupar com a arrumação da casa, mas na solidão do trabalho, voltei no tempo, voltei a sorrir, quando já no final da retirada do fundo do armário, no último parafuso, percebo que o mesmo está espanado, e com uma pitada de humor, repito meu avô Zezinho:
“Ah, você esta aí !!!!!”.
É a certeza da lei de Murfei.
Se algo pode dar errado, se um parafuso pode espanar, se um prego pode entortar, vai acontecer.
Senti-me acompanhado, por meu querido e sábio avô. Na realidade sinto falta dele sempre. Finjo ser normal a solidão. O não ter com quem dividir os planos, o desmontar algo, as conspirações da vida, a conversa com o olhar, o brincar e o observar os animais, a natureza, o rir da vida.
O esperar ansioso o dia seguinte, com suas novidades e adrenalina.
Meu avô, diferentemente de meu pai, me provou que nada (verdade nenhuma) era absoluta.
Tudo era possível, em seu momento. A graça da vida, esta em nosso olhar, na percepção do que acontece. Passávamos pela família (pela casa), recolhíamos tarefas, ir a lojas, ver e buscar informações, resolver problemas. Depois andávamos pelas ruas, falando com um e outro, bailando no palco chamado prazer.
Hoje continuo fazendo o mesmo, vendendo sonhos, chutando pedras, mas sem o parceiro da conivência.
Tento tapar este buraco, mirando o céu.
Mas os passos ficam inseguros, coisa de idade, coisas de saudades.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Embalado pra presente

Ao me calar,
ao não falar o que sinto,
o que me emociona,
simplesmente sobrevivo.

Passo habitar
um mundo paralelo,
em que não me reconheço,
nem ao espaço que ocupo.

Volto a interpretar um papel,
que me "embrulha",
que me sufoca,
que me esconde.

Sinto-me
embalado pra presente,
com laço de fita,
encomodadamente "pronto" para ser-vido.

Sem estímulos,
sem emoção,
simplesmente com competência
e competividade.

Volto ao mundo das sombras,
do silencio,
da noite,
da individualidade.

Local
aonde posso me ocupar,
sem nenhum remorso,
de mim.

Que dificuldade é esta
de viver com o outro?
De demonstrar
que também necessito de atenção.

De cavar meus espaços,
minhas trincheiras,
meu gozo,
a luz do dia.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Só-lidão

Ainda busco
o que não alcanço.
Alimento-me da esperança,
no desejo
de ultrapassar
e vencer limites.

Tenho um olhar distante,
acompanhado
de um sorriso tocável.

Ando por aí,
numa lógica
transversal
a logística.

O movimento constante
me equilibra.
Misturo os dias.
Perco a noção
do que é hoje
e do que foi ontem.

Tudo é muito igual.
Muito ligado
a nenhuma ligação.
Lembro-me dos fatos
como uma história,
distante,
não vivida.

Sempre aguardo a noite,
chegando a criar expectativa,
inquietação,
em atingir o silencio,
o só-lidão.

Atingir minha companheira,
minha madrugada.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O outro ato

Acho tudo bom.
Acho a vida ótima.
Os problemas surgem,
mas me sacudo,
valorizando o prazer,
o movimento,
o outro ato.

Assim,
escreverei mais.
Sentirei mais,
me arrepiarei mais.
Me faz bem,
olhar em volta,
assobiar,
levantar a cabeça,
olhar longe.

É minha terapia.
Sou eu.
Levemente solto,
levemente louco.
Assim espero,
adoro esperar
a vida na vida.
A fruta amadurecer,
a fome vencer.

Na noite me solto,
percebo melhor
o que se passa.
Na luz,
fico ofuscado.
Não consigo me concentrar
nas muitas falas.

O zumzumzum do dia
me perturba
e seu eco
me confunde.
Mas o dia sempre nasce,
lindo convidativo,
desafiador.

O incomodo não vem dele.
Me perco,
na demanda,
do que não me é importante.
Busco a presença
dos olhares
que me tocam.

sábado, 7 de novembro de 2009

Chacoalha

As chuvas lavam a cidade,
tiram as manchas,
enxaguam as diferenças,
esfriam os animos,
enquanto falo com meu pai,
ao telefone.

Ele me ligou,
querendo saber dos exames,
de quando sairei do hospital.
Isto não sei ainda,
mas da janela do quarto,
vejo o vai e vem dos carros.

Na madrugada,
percebo uma vida
que nem imaginava, em Taguatinga.
Sinto vontade de sair,
dar uma fugidinha,
misturar-me entre as luzes e o pulsar das pessoas.

Luzes que seduzem,
em pura magia!!!!!!!
Na magia, atinjo a diferença.
No buscar e construir.
acho meu espaço,
no viver, mergulho na emoção.

Brinco sem medo,
com a naturalidade
e imaturidade da infância.
Mas existe um bem estar,
quando brincam comigo,
quando o prazer é auto permitido.

Um olhar fala,
mas um brilho no olhar,
gargalha.
chacoalha,
no ouvido
e no coracáo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Desarrumdamente vivo!!!!!

Nem amanheceu,
mas rodo na arena da cama
de norte a sul,
de “um” leste
a um desejo oeste.

Hoje,
dia do servidor público,
quero brindar
a volta da vontade
de esculpir os sonhos.

Como um artesão,
utilizo o toque,
o tato,
a percepção do coração,
na fala da ação.

Sai da paralisia,
do achar tudo monstruosamente difícil,
do desanimo dos recursos esgotados.
Estou eu, e o que foi mexido
desarrumdamente vivo!!!!!

Ontem usei
até meu telefone,
liguei para amigos,
marquei encontros,
vou sair c o m i g o.

Consigo ouvir,
perceber o cheio e o vazio,
a particularidade na multidão.
Na preocupação de “tudo” entender,
descarto na cena do fazer diferente.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Primavera

Amanha começa a primavera,
serão quatro meses
de cores.
de passarinhar,
de expectativas.

A magia
não se dara
pela quantidade do tempo,
mas pela intensidade
de cada momento.

O parto
de cada flor
trará sorrisos de vida.
A passagem do vento,
o murmurim das festas,
os arrepios próprios da puberdade.

Estas mudanças
sinalizarão o verão,
com seu calor
e fervor.

Enquanto puder
prorrogue o dia,
a noite,
o instante do gozo.

Atrás de cada sombra
existe um universo
que nunca vi ou visitei.
Fica o brilho do convite,
que enquanto pude
evitei, prorroguei.

Mas é primavera
e este cheiro de mudança
arrepiadamente sentido
será inevitavelmente vivido.